Comentários do leitor

Concurseiros em busca de um sonho para uma boa vaga de trabalho

por carlos silva (2019-08-23)


A utopia/distopia contemporânea da internet como um tipo de curto-circuito cultural deve ser ponderada: se de um lado temos a multiplicidade de informações e de acessos a novos sites e domínios, por outro lado é importante lembrar que uma das características dessa cibercultura - a velocidade, o constante fazer e desfazer -, choca-se com um dos aspectos da Cultura, que é o de sua permanência/duração. Nesse sentido, uma das críticas que se tornaram comuns à cibercultura (ainda nos moldes apocalípticos da crítica à indústria cultural) é a de que ela seria padronizada, rasteira, inconsequente. As informações que proporciona seriam, em sua maioria, superficiais, pouco confiáveis, quando não, ideologicamente para concursos 2020 oferecendo algumas vantagens de emprego No fundo, serviria apenas aos interesses da sociedade de consumo, caracterizando-se como uma falação constante e descartável, tal como se apresenta nas trocas de e-mails, nos chats e nas redes sociais como o Orkut e o Facebook. Outras perspectivas, como por exemplo a de Manuel Castells, enxergam nesse diagnóstico um certo senso comum que faria da internet um playground de nerds e tarados virtuais, onde as pessoas se ocupariam exclusivamente de fofocas, teorias da conspiração e sexo: "Isso é extremamente minoritário, muita gente não tem tempo para isso. O que ocorre é que aquelas histórias de identidades falsas, de que as pessoas se disfarçam de qualquer coisa, de dizer ser o que não são, fazem a delícia dos sociólogos pós-modernos" (Castells, 2003, p.275). Um breve excurso em torno de alguns conceitos sociológicos talvez ajude a esclarecer melhor essa dicotomia. A relação indivíduo & sociedade é um dos temas clássicos da Sociologia - talvez seja, por excelência, seu tema principal. Émile Durkheim irá defender o primado da sociedade sobre o indivíduo: o indivíduo nasce da sociedade e não o contrário. Consequentemente, também defende o primado do todo sobre as partes ou irredutibilidade do conjunto social à soma dos elementos que o compõem, propondo uma explicação dos elementos pelo todo. Nesse sentido, postula o conceito de consciência coletiva, um "conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma sociedade"; que formaria um sistema determinado, que possui vida própria, mas que existe em virtude dos sentimentos e crenças presentes nas consciências individuais, mas distinto das mesmas, pois possui suas próprias leis e não é efeito delas , p.40 e ss.). A cisão indivíduo/sociedade presente na visão foi bastante influente na determinação dos rumos dos estudos sociológicos, relegando, de certa maneira, o estudo dos indivíduos a um papel subalterno dentro do campo da sociologia ou expulsando-o para os domínios da psicologia. Uma outra forma totalmente distinta de se abordar essa relação no âmbito da teoria sociológica é representada por autores como Georg Simmel e Norbert Elias. Em ambos os autores, a perspectiva é a de que o social é um conjunto de relações. A totalidade social (seja "sociedade", "grupo" ou "comunidade") é constituída por um todo relacional, fruto do conjunto das relações que as partes que o compõem estabelecem dinamicamente a cada momento. Assim, não faz sentido a cisão indivíduo versus sociedade: só existe indivíduo na sociedade e sociedade no indivíduo. Sociedade e indivíduo se constroem reciprocamente - "indivíduo em si", assim como "sociedade em si", não passariam, no fundo, de mitos ou simplificações datadas. Simmel empenha-se em estudar a Modernidade e as formas específicas de sociabilidade geradas por esse período histórico e que determinariam as relações dos indivíduos entre si e deles com a sociedade. Amodernidade se caracterizaria, nessa perspectiva, por criar um estilo de vida baseado na estilização dos comportamentos (envolvendo, entre outros, elementos como calculabilidade do concurso da caixa, pontualidade, padronização), implicando em uma multiplicidade e variabilidade de papéis sociais que os indivíduos desempenham em diferentes contextos e momentos. Utilizando uma terminologia mais contemporânea, poderíamos dizer que há, na visão de Simmel, uma perspectiva da sociabilidade como processo relacional em rede : O moderno estilo de vida está relacionado com uma grande variedade de formas de socialização, modos como a sociedade realiza a cada instante a síntese particular que a configura como sociedade. Essas formas de socialização devem ser investigadas (assim o faz Simmel) enquanto "formas de jogo", pois elas supõem e realizam um "jogar com" que estabelece laços entre os homens, de um ao outro e do outro a um próximo, ad infinitum , em uma rede que comporta uma circularidade infinita, mas que também se estende para além de todas as fronteiras e círculos sociais. (Waizbort, 1996, p.29) Simmel resgata o caráter lúdico de diversas formas de sociabilidade, estabelecendo uma relação entre esse traço e os modernos estilos de vida. O aspecto relacional e o caráter lúdico da sociabilidade moderna refletem-se no interesse tanto de Simmel como de Elias pelos aspectos microssociológicos da vida contemporânea: a moda, a comida, a arte, a metrópole, a prostituição, são analisadas como formas de interação particular que permitem o acesso à teia de relações que compõem o todo social: A fome, o amor, o trabalho, a religiosidade, a técnica, as funções ou os resultados da inteligência não são, em seu sentido imediato, por si sós, sociais. São fatores da sociação apenas quando transformam a mera agregação isolada dos indivíduos em determinadas formas de estar com o outro e de ser para o outro que pertencem ao conceito geral de interação.