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Boatos versus ciência e bem-estar na academia são discutidos no VIII Siic

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Publicado: Quarta, 05 de Junho de 2019, 20h00 | Última atualização em Sexta, 14 de Junho de 2019, 16h08 | Acessos: 206

Evento da área de Iniciação Científica ocorre anualmente e em 2019 avalia mais de 100 trabalhos em andamento no Campus Ceres

Por Tiago Gebrim
Fotos: Tiago Gebrim

 

 

Teve início nesta terça-feira, 04 de junho, o VIII Seminário Interno de Iniciação Científica do Campus Ceres do Instituto Federal Goiano (IF Goiano). O evento é uma iniciativa do departamento de Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação (GPPI) da unidade, e tem como principal objetivo avaliar, discutir e difundir, entre os próprios acadêmicos, as pesquisas realizadas na unidade.

O Seminário abrange todos os projetos em execução no período 2018/ 2019, seja para Iniciação Científica (IC) ou para Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (DT&I). Eles são apresentados para a comunidade acadêmica e para uma banca avaliadora, composta por mestres e doutores do quadro funcional do IF Goiano. Ao todo, são 109 trabalhos, de discentes de graduação e dos cursos técnicos.

 


Cleiton Mateus, diretor-geral do Campus Ceres

 

Durante a abertura, o gerente da GPPI, Paulo Ricardo Leite, agradeceu o empenho dos estudantes pesquisadores e também dos servidores que atuam como orientadores: “Fazer pesquisa não é fácil, parece clichê falar isso, mas sabemos as dificuldades que estamos tendo no Brasil”. Ele enfatizou a necessidade de ações extraclasse para uma real formação dos estudantes, destacando a pesquisa como um caminho relevante. “Quando a gente compara um estudante que está desde o início na pesquisa e vai fazer, por exemplo, o trabalho de conclusão de curso, constatamos que ele tem muito mais facilidade na escrita, na apresentação”, informa.

Para o pró-reitor de Desenvolvimento Institucional da unidade, Elias Monteiro, o ambiente dos IFs propicia uma situação singular de formação, permitindo a pesquisa desde a Educação Básica e o envolvimento de estudantes de diferentes níveis. “Qualquer mudança significativa no Brasil precisará passar pela educação, e estamos envoltos nesse processo. Ver o quanto evoluímos nessa questão da pesquisa, com a possibilidade de colocar no mesmo ambiente estudantes do Ensino Médio Técnico até a pós-graduação, é muito gratificante”.

“O que temos aqui nesta noite é fruto de trabalho que vem sendo realizado há alguns anos”, enfatizou o diretor-geral do Campus Ceres, Cleiton Mateus. Ele remontou a história do desenvolvimento da pesquisa, iniciado com a criação dos IFs. “Até 2008, quando era escola agrotécnica, não existia esta estrutura em nosso organograma. Em 2010, o professor Elias Monteiro, então diretor do campus, criou a Assessoria de Pesquisa, que foi inicialmente conduzida pelo professor Luís Sérgio, e na época o primeiro ciclo tinha 10 bolsistas do Ensino Médio. Hoje, no ciclo 2018/2019, são 109 projetos em andamento, 109 apresentações nestes dois dias de seminário. Este é o Campus Ceres”, comemora Mateus.

Encerrando as falas da mesa diretiva, o reitor do IF Goiano, Vicente de Almeida, trouxe em sua fala a característica da investigação científica na Rede Federal. “A pesquisa que nós fazemos no IF é uma pesquisa aplicada, aquela que realmente terá resultado para o desenvolvimento regional, e faz diferença muito grande para a comunidade”, explica Almeida. Para o reitor, o trabalho de pesquisa é “um dos melhores métodos de aprendizagem”, pois envolve o estudante na construção e produção do conhecimento.

 


O reitor do IF Goiano, Vicente de Almeida

 

O descrédito na ciência e os charlatões de plantão – A abertura do VIII Siic trouxe duas palestras de pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), que trataram, respectivamente, do uso da ciência para desmistificar inverdades disseminadas na sociedade e do cultivo de hábitos mentais saudáveis dentro do ambiente acadêmico. A primeira exposição, com o título Entre o fato e o boato: a importância da divulgação científica baseada em evidências, foi ministrada pelo professor Paulo Gentil, que é doutor em Ciências da Saúde.

Gentil utilizou conhecimentos específicos de sua área de formação e de pesquisa – Educação Física e Saúde – para demonstrar a falta de crédito dos cientistas em relação ao prestígio conferido pelas “celebridades” de redes sociais. O mote das informações trazidas são algo em voga na mídia e que atraem olhares de grande parte da população: emagrecimento e hipertrofia muscular.

O pesquisador trouxe dados que apontam, por exemplo, como a adoção de políticas públicas contrárias ao sedentarismo, com real efetividade, não impediram que a população norte-americana aumentasse o sobrepeso e a obesidade, apesar de se moverem mais. Diante desses fatos, Gentil explicou, por meio de dados empíricos, como alguns organismos são o que ele chama de “econômicos”, e reduzem seu metabolismo com a escassez de alimentação, tornando com pouco ou nenhum efeito o uso de dietas, por exemplo.

As dietas restritivas, os jejuns, a eliminação de glúten, entre tantas outras práticas alardeadas aos montes em redes sociais e na própria mídia, comprova o palestrante, não tem eficácia comprovada e, em muitos dos casos, prejudicam o organismo, inclusive produzindo o efeito contrário – isso é, o aumento de peso – após alguns ciclos. Gentil mostrou como o treinamento intervalado de alta intensidade (popularmente conhecido como HIT) propiciou, em grupos de pessoas com metabolismo econômico, aumento de gasto energético e consequente emagrecimento, mesmo mantendo – ou, em muitos casos, até elevando – o consumo de alimentos.

Em relação à musculação, o pesquisador mostrou como o treino de hipertrofia muscular, feito em excesso, trouxe resultados negativos, propiciando crescimento do músculo e aquisição de força em percentual menor em relação a quem estabelecia treinos com menor repetição. Foram apresentados, também, gráficos em que demonstrou-se que a repetição localizada, em adição a exercícios mais amplos, não representava necessariamente mais eficácia para aumento de força ou tecido do músculo.

Todos estes assuntos, que despertaram curiosidade da plateia, serviram para que Gentil explicasse como o conhecimento científico está em descrédito – as informações vão de encontro ao que é dito por “especialistas” em canais no YouTube ou Instagram, por exemplo. A adoção de técnicos agressivas de regime ou de treinos que podem, inclusive, trazer danos sérios ao organismo, de ordem física ou psicológica, não possuem bases científicas, mas são consumidos indistintamente. “Os cientistas ficaram tanto tempo trancados em seus laboratórios que se distanciaram da população e o espaço foi preenchido por charlatões”, informa Paulo Gentil.

Para o professor, a ciência deve ser utilizada para mudar a vida das pessoas, e é importante que os pesquisadores, independentemente de serem de iniciação científica, mestrandos ou doutorandos, estabeleçam meios de levar à comunidade os seus resultados e aplicações. Dessa forma, espera-se, seja possível despertar novamente a importância da ciência para resolução de problemas e proposição de alternativas seguras, seja na área da Saúde ou em outras.

 


Erika Silveira e Paulo Gentil, ambos da UFG, foram os palestrantes da abertura do VIII Siic

 

Desempenho e sucesso: causas da felicidade? – A segunda palestra da noite foi intitulada Felicidade na vida e no ambiente acadêmico, ministrada pela professora Erika da Silveira, que é doutora em Saúde Pública. A fala da pesquisadora instigou os estudantes a pensarem o que vale a pena sacrificar em detrimento do que se almeja como sucesso. Baseada na Psicologia Positiva, área dos estudos mentais desenvolvida a partir de 1998 com Martin Seligman, Silveira iniciou sua fala com a provocação: o sucesso leva à felicidade leva ao sucesso?

Ao longo da apresentação, a palestrante explicou como a obsessão pela perfeição e por se reconhecer como bem-sucedido podem trazer um estágio de infelicidade, distanciando o sujeito de uma vida saudável. Fazendo uma ponte com a explanação anterior, de Paulo Gentil, Erika da Silveira lembrou que pululam na internet conteúdos sem base científica sobre “como alcançar o sucesso”, propiciando que as pessoas se entreguem a fórmulas e planos que, uma vez ineficazes, acabam por trazer mais insatisfação aos seguidores.

Para a pesquisadora, um dos problemas de maior gravidade é empurrar a satisfação para uma época futura, e ir a adiando conforme as etapas são alcançando: “A cada vitória nossa meta é empurrada para frente”. Mirar no sucesso alto e distante de nossa realidade, também, é outra causa de frustração e possível fonte de problemas de ordem emocional, como a ansiedade. Ilustrando suas falas, Silveira trouxe um estudo de Shawn Achor realizado na Universidade de Harvard.

Em sua pesquisa, Achor visualizou como o sentimento de euforia por ter ingressado em Harvard – reconhecidamente uma das instituições de maior prestígio no mundo – logo era substituído por emoções ruins devido à adoção de comportamento competitivo e preocupações com situações futuras. Cada vez mais focados em obter bons resultados e se destacar frente aos demais colegas, os estudantes sofriam estresse e se distanciavam das próprias metas de desempenho. Em compensação, aqueles que conseguiam manter o estímulo visto na época do ingresso e focavam apenas na sua formação, independente da pressão sofrida, conseguiam se manter com boas notas e emoções positivas ao longo da graduação.

Conforme explicou Silveira, a interpretação da própria realidade altera sua experiência nessa mesma realidade. Portanto, é importante investir no que ela nomina de emoções positivas, como alegria, gratidão, serenidade e interesse. Biologicamente, estas emoções ampliam os níveis de dopamina e serotonina, trazendo bem-estar e melhorando a capacidade de aprendizagem e manutenção das redes neurais correspondentes à permanência da informação. A pesquisadora chama atenção para o ciclo que se inicia com felicidade e otimismo e acarreta, consecutivamente, maior motivação, criatividade, resiliência, desempenho e, portanto, vantagem competitiva.

Enfim, Erika da Silveira elencou os princípios para a felicidade, conforme os estudos na área da Psicologia Positiva: adoção de atitude mental positiva, não ficar preso a um padrão de comportamento, encontrar oportunidades em eventuais adversidades, estabelecer metas pequenas e factíveis, que possam ser de fato alcançadas, e fazer investimento social. “Estudos revelam que relacionamentos sociais garantem o bem-estar e são antídotos para depressão, além de impulsionarem o alto desempenho”, explica a pesquisadora. “A mente é um lugar em si mesmo, podendo fazer do céu um inferno e o inferno um céu”, arremata Silveira, com frase de John Milton, intelectual inglês.

 


(Da esq. para dir.) Paulo Ricardo Leite, Cleiton Mateus, Paulo Gentil, Erika da Silveira e o coordenador do VIII Siic, Matias Noll

 

 

Ascom Campus Ceres

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