Os desafios para viver e conviver na era da ansiedade
Palestra ministrada para os estudantes de pós-graduação do Campus Ceres mostrou os principais causadores do adoecimento mental e meios para buscar sua superação
Por Tiago Gomes de Paula
Fotos: Tiago Gomes de Paula
Não é de hoje que ouvimos que estamos no país mais ansioso do mundo. Em 2017, a Organização Mundial da Saúde apontou esse fato, em pesquisa que indicou a ansiedade como atingindo aproximadamente 9,3% da população. Isso foi antes da pandemia de Covid-19, que repaginou o mundo entre 2020 e 2021, trazendo mudanças permanentes no nosso cotidiano. Tamanhas que, em 2023, a pesquisa Covitel, liderada por entidades como a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), destacava a prevalência de ansiedade no Brasil em 26,8%, um salto de mais de 188%.
Quando imaginamos esta realidade em um ambiente de extrema pressão por resultados e competitividade, como o mundo acadêmico, o cenário pode ser catastrófico. Foi pensando nisso que o Campus Ceres do Instituto Federal Goiano promoveu, na última sexta-feira, 27 de março, a aula magna dos cursos de pós-graduação com o tema Saúde mental na pós-graduação: produtividade e bem-estar.
A palestrante convidada foi a doutora em Psicologia Rose Helen Shimabuko. Com sólida atuação na área da Psicologia do Trabalho e Organizacional, membra efetiva do quadro de servidores do Instituto Federal de Goiás, a palestrante apresentou à plateia o preocupante cenário do qual poucos – quase ninguém – escapam, e falou sobre possíveis saídas deste caldeirão tumultuoso em que se tornou o mundo pós-pandêmico.
Shimabuko contextualizou toda a situação com dois acrônimos utilizados para explicar a situação atual da sociedade – VUCA e BANI. O primeiro volta à era final da Guerra Fria e foi, indiretamente, cunhado pelos acadêmicos Warren Bennis e Burt Nanus, mas tornado famoso na conferência The US Army War College Experience, em 1991. VUCA são as iniciais para os termos volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, que buscavam explicar como o mundo se reorganizava com a aceleração das tecnologias, da digitalização e de um mundo pós-URSS, em rota de globalização.
Em 2018, o conceito BANI foi apresentado ao mundo pelo antropólogo Jamais Cascio, e foi durante e após a pandemia que seus efeitos passaram a ser mais notados. De certa maneira, o mundo BANI, cujas letras são as iniciais de frágil, ansioso, não linear e incompreensível, surge quando o acrônimo anterior já não se mostra mais capaz de explicar as dificuldades de um cenário que se caracteriza pela velocidade da informação, disseminação de notícias falsas, multiplicidade de falantes, isolamento social, desmonte da percepção de carreira e ascensão de trabalhos precarizados, sem garantias.
Nessa nova realidade, que não substitui o antigo mundo VUCA e suas dificuldades, mas sim o atualiza, a palestrante aponta para o que chamou de sofrimento psíquico. Mais sutil que uma depressão e mais sorrateiro que uma crise de ansiedade, ele é caracterizado por sentimentos desagradáveis e emoções negativas que são persistentes, afetando o funcionamento psíquico do indivíduo, resultando em visões negativas e deturpadas de si, do ambiente e dos outros. Em última instância, uma situação permanente de desesperança. Entre os problemas trazidos pelo estado de sofrimento psíquico, conforme Shimabuko, estão o isolamento, a busca do prazer em vícios, o analfabetismo comunicacional, a produtividade tóxica – quando a mente não descansa, mesmo fora dos momentos laborais – e a fadiga mental, uma sensação que ultrapassa o cansaço em si e, ao cabo, traz o esgotamento e dificuldade de executar simples tarefas cotidianas.

Rose Shimabuko, palestrante da aula magna 2026 dos cursos de pós-graduação do Campus Ceres
A palestrante também abordou o presenteísmo, que faz com que o pesquisador execute suas atividades mesmo doente, comprometendo seu bem-estar em nome de prazos, resultados e números, e a dobradinha Boreaut e Burnout. A primeira se trata de uma síndrome cujo fator preponderante é a desmotivação, a dificuldade de encontrar significado nas atividades desenvolvidas. A segunda, mais conhecida no imaginário contemporâneo, é o esgotamento mental em si, que resulta de um estresse crônico e traz, em sua esteira, além da exaustão emocional, a apatia e falta de produtividade. “Este cenário é real, é mundial e é muito próximo de nós”, explica Shimabuko, assinalando que, atualmente, o Brasil é o 2º país em números de casos de Burnout.
Enfatizando o ambiente acadêmico, a psicóloga informou que, desde 2022, o número de publicações acadêmicas tratando de saúde mental e burnout acadêmico já totalizam, respectivamente, mais de 16.700 e 15.900, conforme o banco de dados do Google Acadêmico. Os chamados “estressores” dentro dos programas de pós-graduação estão em dois troncos – os relacionais e os que se conectam diretamente às atividades em si. No primeiro, são apontados o isolamento acadêmico, o relacionamento com orientador, a competitividade exacerbada e a falta de reconhecimento. Já no segundo aparecem a pressão por produtividade, tão conhecida, e a sobrecarga de trabalho. “As relações de assédio [que se manifestam de diversas maneiras] também se configuram como os maiores riscos de adoecimento mental na pós-graduação”, explica Shimabuko.
POSSÍVEIS SOLUÇÕES - Assim como é complexo e multifatorial o cenário do adoecimento mental, da mesma maneira são múltiplas ações que podem ser tomadas, em nível individual e organizacional, a fim de mitigar os fatores que nos levam a ele. “Não há receita pronta”, diz a palestrante, que começa pelo conceito do bem-estar psicológico. Diferentemente do que se possa pensar, o cultivo deste bem-estar não representa simplesmente a ausência do adoecimento da mente. “O bem-estar psicológico é uma forma positiva de se sentir em relação a si mesmo, está na qualidade das relações e na capacidade de identificar sentimentos e enfrentar desafios no mundo”, explica. São fatores pessoais, organizacionais – o que inclui, por exemplo, a cultura dentro de um determinado programa de pós-graduação – e socioambientais que, interseccionados, contribuem para a saúde mental.
Shimabuko traz uma equação advinda da Psicologia Positiva, a qual postula que a felicidade resulta de três fatores combinados, quais sejam, as questões pessoais e genéticas, as circunstâncias da vida e, por fim, fatores que obedecem ao nosso controle voluntário. Porém, a proporção de impacto e importância de cada fator na fórmula é diferente. Em que pesem 50% serem determinados pelas questões do indivíduo (genéticas e de personalidade), somente 10% são de responsabilidade das circunstâncias, estando a segunda maior parcela (40%) diretamente relacionada a fatores voluntários - que demandam, do sujeito, a intencionalidade, a busca deliberada. A psicóloga explica que, pela chamada plasticidade neuronal, a mente é capaz de se adaptar a praticamente tudo, inclusive a condições adversas e ruins. Por isso a ação intencional é tão importante nesta equação – é preciso atenção a que tipo de relação e ambiente estamos nos adaptando, muitas vezes sem perceber.
Uma das chaves de sucesso é investir em conexões humanas. Assim, pura e simplesmente. “A neurociência e a sociologia mostram que, ao priorizarmos a cooperação e a colaboração em detrimento da competitividade, criamos a cultura da segurança psicológica”, conta Shimabuko. Este é, em nível institucional, um ponto especialmente importante. Trata-se de um ambiente em que a vulnerabilidade é reconhecida e compreendia, e não punida. “Ali, você tem liberdade para dizer que não é capaz ou que não consegue naquele momento. Quando há cultura de segurança psicológica, há pertencimento. Para isso é preciso ter comunicação aberta e transparente e reconhecimento das contribuições individuais, além da empatia – compreender como o outro pensa e suas motivações”, aponta.
Além do bem-estar e dos relacionamentos positivos, outros três fatores apontados pela pesquisadora são o engajamento e compromisso e o reconhecimento de propósito e significado nos projetos, além de tomar consciência de suas próprias realizações. A soma dos cinco fatores abordados é, inclusive, tratada na Psicologia Positiva, sob o acrônimo PERMA, desenvolvido pelo psicólogo Martin Seligman, que os determina como essenciais para a felicidade do sujeito. Shimabuko ainda adiciona à lista a atividade física, comprovadamente necessária para a saúde mental, e a dieta balanceada – que não significa abrir mão de “prazeres”, mas buscar o equilíbrio necessário na alimentação.
Por fim, é imprescindível compreender que não é necessário sofrer para produzir. A falsa ideia de que a pós-graduação precisa ser, obrigatoriamente, dolorosa, pode trazer a impressão de superficialidade intelectual quando o percurso se aparenta leve. E isso é um engodo. “É possível ter produção acadêmica sem exaustão mental e bem-estar e produtividade coexistindo. Mas é preciso intencionalidade. Rigor intelectual também pode caminhar com equilíbrio, organização e lucidez. A ciência exige, sim, esforço, mas também pode ser um processo intelectualmente saudável”, conclui Shimabuko.

O diretor-geral do Campus Ceres, Adriano Braga, durante sua fala no início da aula magna
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