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IF Mulheres

  • IF Mulheres (entrevista completa do Boletim IF em Movimento - jun/21)

    Criado em 2020 para este Boletim, o IF Mulheres é um espaço destinado a divulgar as ações de mulheres do IF Goiano. Tendo em vista que, como frutos de uma sociedade machista, na qual a violência contra a mulher – física, verbal ou emocional – é naturalizada, elas possuem várias desvantagens sociais. Então, esta seção se configura como um espaço de luta contra a institucionalização das violências e um espaço de referência e sororidade para as nossas estudantes, servidoras e mulheres da comunidade local. Na abordagem dessa edição, realizamos entrevistas com três mulheres, que desafiaram as imposições sociais de suas épocas e vivem como mulheres à frente do seu tempo, encarando o machismo e lutando contra toda ação limitadora às suas potencialidades.

    Tema: Se chorei ou se sorri, o importante é que eu sobrevivi!

    A equipe desta ação agradece o espaço permitido pelos nossos gestores, trabalhamos juntos para o crescimento da nossa instituição.

     

    Entrevistada: Mirelle Amaral de São Bernardo

    Descrição profissional: Doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Brasília (2011) e graduada em letras (Português/Inglês) pela Universidade Estadual de Goiás (2003). Atualmente, professora de Inglês/Português - INSTITUTO FEDERAL GOIANO - CAMPUS CERES. Docente permanente do programa de Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT). Atua principalmente nos seguintes temas: Português como Língua Estrangeira (PLE); Português como Língua de Acolhimento (PLAc); Ensino Crítico de Línguas Estrangeiras; Ensino de Inglês como Língua Estrangeira.

    1. Como você reflete sobre o papel das mulheres no passado, na luta pela causa feminina? Considere, também, em sua reflexão, as suas próprias vivências e a forma como o mundo mudou durante a sua jornada.

    O início da história de luta das mulheres e do surgimento do feminismo é branco e de classe média. Essas eram as características das mulheres que começaram a luta por igualdade de direitos sociais. Mulheres que lutavam pelo direito de entrar no mercado de trabalho, votar, tinham em suas casas servidoras domésticas negras sem direitos trabalhistas e que eram, de certa forma, excluídas das lutas feministas.

    No entanto, mais recentemente, entendemos que a revolução feminista só acontecerá quando garantirmos que “todas nossas irmãs, independentemente da classe social, assim como todos nossos irmãos, subam conosco” (DAVIS, 2017).

    Contudo, nós, mulheres e homens, ainda precisamos entender o que é o femismo e as lutas femininas pela equidade de gênero. Só conseguiremos atingir uma sociedade mais justa por meio da coletividade e das discussões que clareiem o que realmente precisa ser feito. Tenho me dedicado a ler e compreender melhor o feminismo e tento, seja nas minhas relações sociais reais ou virtuais, conversar, compartilhar e discutir o assunto com meus pares.

    2. Você faz parte de uma geração em que é muito cobrado da mulher o cuidado do lar, principalmente quanto à maternidade, contudo você se mostrou uma mulher à frente do teu tempo, que lutou contra esta imposição social e traçou uma carreira profissional bem sucedida. Como foi se consolidar no ambiente de trabalho e lidar com as cobranças sociais acerca do cuidado familiar?

    Apesar de ter conseguido me realizar profissionalmente e ter independência financeira, isso só foi possível porque conto com privilégios dos quais muitas companheiras não podem contar. Sempre tive uma rede de apoio e pude contar com minha família, tanto financeiramente inicialmente, quanto com a colaboração de pessoas que me ajudaram a cuidar dos meus filhos para que eu pudesse estudar e trabalhar.

    O tema da ‘rede de apoio’ é um dos que considero mais importantes quando nos referimos à maternidade. Mulheres não vão deixar de ser mães, mas precisamos ressignificar os papéis dentro do processo de ‘maternar’, além de discutir a importância da atuação do Estado nesse processo.

    3. O conto da aia, de Margaret Atwood, é um romance fictício que se passa num futuro muito próximo na república de Gilead (anteriormente era os Estados Unidos da América). Nessa república não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes e as universidades foram extintas. O Estado é teocrático e totalitário e as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes numa sociedade onde elas perderam todos os seus direitos. Infelizmente, retrocessos como este não estão apenas na ficção, a história das mulheres iranianas é um exemplo disto, a partir da revolução islâmica em 1979, as suas vestimentas foram questionadas e no início da década de 80 foi imposto um código de vestimentas obrigatório a estas mulheres. Neste contexto, fica claro a fragilidade do direito feminino, descrito pela autora Simone de Beauvoir como uma concessão temporária. Com base no texto acima, escreva sobre a importância dos movimentos feministas na sociedade brasileira.

    A participação das mulheres nas revoluções e nos movimentos sociais tem sido omitida desde sempre, principalmente no que se refere ao papel das mulheres negras e das mulheres da classe trabalhadora. No entanto, sabemos que a cada crise, a cada situação de perigo, são as mulheres e as “minorias” as primeiras a perderem direitos e serem colocadas às margens. Os programas sociais e de distribuição de renda são os primeiros a serem considerados onerosos ao Estado, em situação de crise e, com isso, as mulheres, principalmente as mulheres negras periféricas, são as primeiras a serem atingidas.

    Dessa forma, sabemos que os movimentos de luta feministas devem seguir firmes, mesmo depois de algumas conquistas importantes. Nós temos sido uma agência política também na luta por outras questões, como movimentos para mudanças socioeconômicas, ambientais, anticolonialistas, entre outros. E temos mostrado nossa força pela organização, porém não podemos esmorecer. A luta está só começando.

    4. No seu ponto de vista, qual é o maior legado que as mulheres desta geração podem deixar para as futuras mulheres que habitarão o nosso planeta.

    O legado mais importante dos últimos anos dos movimentos feministas foi o reconhecimento da Interseccionalidade. Por isso, uso o plural quando me refiro aos feminismos ou movimentos feministas. Não que eles estejam divididos ou aconteçam separadamente, mas porque todas as mulheres têm que ser envolvidas e sentirem-se parte dos ideais e das lutas. Ângela Davis, num encontro internacional sobre feminismo negro e decolonial em Cachoeira - BA, defendeu o poder de transformação da mobilização dizendo: "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela (...)."

    5. A partir de sua experiência, qual mensagem de motivação, força e empoderamento você poderia dizer para nossas estudantes, servidoras e mulheres da comunidade local?

    Principalmente que só há revolução com luta coletiva. Podemos e devemos melhorar individualmente, tentando aprender mais, entender melhor, conhecer mais profundamente o feminismo, porém precisamos estar mobilizadas coletivamente para que a revolução aconteça. Seguimos juntas! Nem uma a menos!

     

    Entrevistada: Miriam Lucia Reis Macedo Pereira

    Descrição profissional: Mestre em Ciências da Educação Superior pela Universidade de Havana (2013). Especializações em: Educação Profissional na Formação EJA (CEFET-MG); Ciências Sociais (UFG); História do Brasil Contemporâneo (Uni Evangélica); Metodologia do Ensino (Uni Evangélica); Graduada em Pedagogia (UCMG) e em Direito (Uni Evangélica). Trabalha no Instituto Federal Goiano - Campus Ceres como Coordenadora de Apoio Pedagógico (CAPTG), Coordenadora do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE). Atuou como professora e coordenadora da área de Ciências Sociais do Curso de Pedagogia na Uni Evangélica. Ministrou aulas nos Cursos Superiores de Pedagogia e Educação Física da Universidade Estadual de Goiás; Curso de Letras - Uni Evangélica e no Curso de Direito da FACER. Trabalhou como professora dos Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio no Instituto Federal Goiano - Ceres. Tem experiência nas áreas de Educação, Educação de Jovens e Adultos; Sociologia, História, Diversidade Cultural, Didática Avaliação e Políticas Públicas. Participou dos projetos de pesquisa da CAPES: Observatório de Educação de Jovens Adultos - OBEDUC e participa dos Grupos de Pesquisa, Saúde, Epidemiologia e Bioengenharia e Sujeitos da Educação no Instituto Federal Goiano e seus Impactos.

    1. Como você reflete sobre o papel das mulheres no passado na luta pela causa feminina? Considere, também, em sua reflexão, as suas próprias vivências e a forma como o mundo mudou durante a sua jornada.

    O papel da mulher, quando voltamos ao passado, traz a função de um ser destinado à procriação e para agradar o homem. Durante muitos séculos, a história registra a discriminação da mulher em relação ao homem, a submissão silenciosa, sem voz e sem direitos. Ao conceder aos homens o direito e a condição de donos do saber, da autoridade e às mulheres o papel feminino, sexo frágil, subordinado ideologicamente ao poder masculino, a história vem salientar as desigualdades.

    A partir deste contexto, no caminhar da história, é importante compreender que muitas mulheres desafiaram as estruturas sociais, enfrentaram os preconceitos, lutaram pelos seus direitos, pela igualdade, propiciando o desenvolvimento e uma nova percepção para sociedade, em relação ao papel da mulher, que além de ser feminina, tinha a condição de ter sua identidade individual, seus direitos, fazer suas escolhas e, participar ativamente de outras funções como trabalho fora de casa, política, educação, além de ser mãe, dona do lar e da função de esposa.

    Ao pensar na minha história, na minha infância e no caminhar da minha vida, posso descrever que vivenciei uma vida de preconceito e desigualdade social. Nasci em uma família extensa, de oito filhos. Minha mãe não tinha o primário completo. Cuidava do lar e dos filhos. Meu pai fez o curso de Teologia e trabalhou como funcionário público. Nasci com uma deficiência física, congênita, na perna esquerda e desde os dois anos passei por diversas cirurgias, para poder andar sem usar muletas.

    Minha vida, devido às circunstâncias da minha deficiência, foi marcada pela segregação e pelo preconceito. Fui considerada incapaz de ter uma vida social ativa e profissional. Minha família, a partir de suas condições, me deu amor e todo apoio que puderam. Neste contexto, desde jovem, busquei lutar pelos meus direitos. Não aceitava desrespeito. Buscava, através dos estudos, aprimorar minha inteligência, habilidades e lutar pelo direito de ser tratada como igual, apesar da minha diferença.

    Aprendi muito na vida. Trabalhei desde cedo, aos 14 anos, para ajudar a família. Foram anos de aprendizado. Formei-me em Pedagogia, passei em concurso municipal, estadual e fui ser professora. Trabalhei durante muitos anos em favela, onde conheci a dor, a tristeza, o desespero, a falta de uma educação que lhes dessem a condição de uma vida melhor. Trabalhar com o ser humano é surpreendente, admirável, porque quando conhecemos suas potencialidades e fragilidades, conseguimos perceber o quanto são capazes quando valorizados e tomam consciência de que podem mudar suas vidas, de lutar pelos seus direitos, e ter uma vida mais digna e produtiva.

    O mundo foi mudando. O movimento feminista surgiu com maior ênfase na década de 60 e 70 e influenciou a vida de muitas mulheres, que mostraram coragem, inteligência, capacidade e habilidade de agir e fazer acontecer e de outras sujeitos que se importavam com a luta da mulher pelo seu espaço e pelo seu direito. Apoiei o movimento e continuei lutando pelo direito da mulher, passei por muitos obstáculos à procura de acabar com o preconceito, a imposição social, a desigualdade de gênero, sexo, pela valorização do trabalho da mulher e pelos direitos individuais femininos. Passei no concurso federal e continuo na luta pelos direitos das minorias, por uma educação de qualidade, pela participação da mulher no mundo do trabalho e nas ações políticas. Acredito que juntos somos mais, portanto, temos que agir, fazer acontecer, transformar o mundo a todo momento.

    2. Você faz parte de uma geração em que é muito cobrado da mulher o cuidado do lar, principalmente quanto à maternidade, contudo você se mostrou uma mulher à frente do teu tempo, que lutou contra esta imposição social e traçou uma carreira profissional bem-sucedida. Como foi se consolidar no ambiente de trabalho e lidar com as cobranças sociais acerca do cuidado familiar?

    Viver em um mundo onde todos os dias, nós, mulheres, somos compelidas a provar para a sociedade que somos capazes de viver o trabalho familiar em conjunto com o trabalho profissional, é difícil e desgastante emocionalmente, porque ainda vivemos sob a percepção de uma sociedade onde o olhar e a autoridade masculina, ainda prevalece.

    Nestas circunstâncias, a nossa realidade é desafiadora, porque o trabalho familiar ainda não é valorizado pela sociedade, com todos os seus direitos, e quando buscamos nosso espaço de igualdade com os homens, ainda somos consideradas subversivas, que querem mudar os valores familiares, onde o homem machista tem a autoridade e a mulher deve continuar submissa, sem desejos, sem identidade. Este é um desafio contínuo, que tenho enfrentado na minha vida pessoal e no trabalho.

    Fiz graduação de Direito, que era um sonho, depois dos 50 anos, porque acredito que nunca é tarde para aprender e ajudar vidas. Ampliei meus conhecimentos para compreender como as leis podem nos ajudar a vencer nossos medos, ter nossos direitos legalmente adquiridos, sem sofrer a imposição e o domínio de grupos sociais que se consideram os poderosos, capazes de nos submeter, retirando os nossos direitos e nossa liberdade pessoal de ser o que queremos ser.

    Precisei acreditar em mim, perceber que posso aprender e reaprender quando necessário, como realizar todo o meu trabalho profissional. Vivenciei e ainda vivo com pessoas que se importam com o que fazemos no trabalho e buscam valorizar nossas potencialidades e habilidades. São colegas de trabalho, amigos, que abriram os olhares e perceberam que, apesar das diferenças significativas, todo ser humano tem potencial e pode contribuir para um trabalho mais eficiente e produtivo. Deus os abençoe!

    Aprendi que tenho que ouvir os outros, mas também expressar minhas ideias, mesmo que não sejam aceitas ou consideradas importantes, porque somos seres humanos e o diálogo e a discussão fazem parte do que somos e o que queremos ser. Busco ter coragem e lutar para enfrentar os meus medos, os meus desafios e estou aberta a mudanças, porque acredito no ser humano, no desejo do bem, do amor, da busca da felicidade.

    Para realizarmos um bom trabalho é preciso gostar do que faz e mesmo que não seja o ideal, é fundamental fazer o seu melhor. Faço o meu trabalho com amor, com desejo de acertar, buscando contribuir de forma efetiva. Tenho erros e acertos, mas isso é que é ser humano, não somos completos, vivemos aprendendo, precisamos uns dos outros, com respeito, dignidade, autonomia, sobrepujando a luta por poder, cargo, função, dinheiro, para vivermos bem, com harmonia, com nossos direitos, com as nossas individualidades, sendo reconhecidos e valorizados pelo que somos, pelo que fazemos e pelo que podemos ser.

    3. O conto da aia, de Margaret Atwood, é um romance fictício que se passa num futuro muito próximo na república de Gilead (anteriormente era os Estados Unidos da América). Nessa república não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes e as universidades foram extintas. O Estado é teocrático e totalitário e as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes numa sociedade onde elas perderam todos os seus direitos. Infelizmente, retrocessos como este não estão apenas na ficção. A história das mulheres iranianas é um exemplo disso. A partir da revolução islâmica em 1979, as suas vestimentas foram questionadas e no início da década de 80 foi imposto um código de vestimentas obrigatório a estas mulheres. Neste contexto, fica claro a fragilidade do direito feminino, descrito pela autora Simone de Beauvoir como uma concessão temporária. Com base no texto acima, escreva sobre a importância dos movimentos feministas na sociedade brasileira.

    No mundo que vivemos, atualmente, ainda existem países onde as mulheres continuam sendo vítimas da opressão da sociedade masculina, que não permitem ter seus direitos, são marginalizadas, violentadas, banalizadas e consideradas parte do homem, que a submetem à sua autoridade, impondo condições de inferioridade em todos os âmbitos, culturais, sociais e políticos. Nessa realidade, podemos constatar o quanto a desigualdade social é perene e frágil é o direito da mulher.

    Na evolução da história, em diferentes países, o espaço de ação da mulher sofreu grandes impactos e foi ampliando seu poder. Mesmo sendo do lar, obrigadas a casar, a criarem filhos, servindo seus maridos, muitas mulheres conseguiram ter voz, participar de movimentos políticos, ter liberdade sexual e de gênero, fazer escolhas significativas para sua vida, sendo exemplos para outras mulheres. Portanto, realizaram grandes mudanças, desenvolvendo ideias e ações de emancipação, buscando ter igualdade social, política e cultural.

    Aqui no Brasil, ainda vivemos a desigualdade, a violência, o abuso, a marginalização e o preconceito. No entanto, muitas mulheres estão resistindo, agindo em todos os segmentos sociais, participando com garra, coragem, levando a nossa voz e nossas ideias nos movimentos políticos, culturais, econômicos e sociais, demonstrando que não estamos estagnadas.

    O caminho é longo e árduo, mas precisamos continuar lutando pelo direito da mulher, realizando ações em conjunto com os movimentos feministas, buscando o empoderamento feminino, reivindicando os direitos pela igualdade entre os gêneros nos diversos cenários da sociedade. É fundamental que todas as mulheres tomem consciência da opressão e da dominação em que vivem em relação ao homem, para que juntas lutem contra essa inferioridade imposta e preconceitos existentes. É preciso conquistar os nossos direitos, nossa independência, sem desistir, buscando viver em um mundo onde somos, na amplitude da palavra, “ iguais”.

    4. No seu ponto de vista, qual é o maior legado que as mulheres desta geração podem deixar para as futuras mulheres que habitarão o nosso planeta.

    Somos poderosas, fortes, inteligentes, temos habilidades de liderança e potencial para vencer os grandes obstáculos que a sociedade nos impõe. A nossa liberdade de ser o que queremos e poder fazer o que precisarmos, para ser feliz, é o nosso bem maior. Para isso precisamos estar empoderadas, lutar pela equidade, pela não discriminação, por uma educação de qualidade, evitando, portanto, que as futuras gerações ainda vivam em um mundo de disparidades e desigualdades gritantes. Precisamos estar juntas nessa caminhada, buscando a felicidade um do outro, enfrentando nossos medos. Unidas no mesmo ideal, podemos vencer todas as barreiras que a sociedade, ainda dominada pelo homem, nos faz viver.

    5. A partir de sua experiência, qual mensagem de motivação, força e empoderamento você poderia dizer para nossas estudantes, servidoras e mulheres da comunidade local?

    Acredito que trabalhar o empoderamento é essencial para todas as mulheres, servidoras e nossas estudantes que vivem em contexto de vulnerabilidade. Observo que, desde cedo, nossas meninas, nossas adolescentes, são levadas a pensar que são menos do que os meninos e homens e, por isso, não são consideradas importantes nem suas vozes são ouvidas.

    É fundamental que todas as mulheres possam compreender que são capazes, e que dentro de cada uma existe uma força, uma energia capaz de derrubar todos os obstáculos. Jamais pense que você não é capaz e que seus esforços são em vão. Valorize sua história, sua vida, pois rótulos não nos definem. Precisamos revolucionar, buscar e conquistar nosso espaço, com força e determinação. Como diz Simone de Beauvoir:

    Que nada nos defina,
    Que nada nos sujeite.
    Que a liberdade
    seja nossa própria substância...

    Não podemos desistir, precisamos acreditar que tudo é possível e que podemos transformar o mundo, principalmente quando lutamos com o coração!

     

    Entrevistada: Iraci Balbina Gonçalves Silva

    Descrição profissional: Pedagoga, doutora em educação pela PUC/Goiás. Anterior ao IF Goiano, atuei como professora em todos os níveis de ensino. Fui coordenadora pedagógica do “Aprendizado Marista Padre Lancísio” e da Rede Municipal de Ensino de Silvânia/Goiás. Fui professora Efetiva da Rede Municipal de Ensino de Silvânia/GO, Rede Estadual de Ensino de Goiás e Universidade Estadual de Goiás. Atuei por 13 anos como professora formadora do Proformação, Proinfantil e Profuncionário. Em 2010 iniciei como servidora do IF Goiano e em 2012 comecei a atuar na Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação.

    1. Como você reflete sobre o papel das mulheres no passado na luta pela causa feminina? Considere, também, em sua reflexão, as suas próprias vivências e a forma como o mundo mudou durante a sua jornada.

    Entendo que ser mulher significa estar em luta constante e perceber que as conquistas são frágeis e precisam de vigilância. Vivemos em um mundo em que a democracia sofre de ataques e os retrocessos podem ocorrer. É preciso reconhecer que usufruímos de conquistas de mulheres do passado. Votamos, temos carreira profissional, ocupamos cargos de poder porque mulheres ousaram a desafiar a estrutura social e política. Outras mulheres virão ocupar espaços devido à luta que travamos hoje. Na minha jornada, fico sempre tentando analisar a situação para enxergar situações de preconceitos e discriminação... aos poucos vou tendo uma visão mais clara da mulher que quero ser.

    2. Você faz parte de uma geração em que é muito cobrado da mulher o cuidado do lar, principalmente quanto à maternidade, contudo você se mostrou uma mulher à frente do teu tempo, que lutou contra esta imposição social e traçou uma carreira profissional bem sucedida. Como foi se consolidar no ambiente de trabalho e lidar com as cobranças sociais acerca do cuidado familiar?

    Uma vez fizemos uma pesquisa com mães trabalhadoras e percebemos que quando a mulher está exercendo a sua profissão, ela carrega uma dor na consciência como se ela tivesse a obrigação de estar em casa cuidando dos filhos. No meu caso, sempre acreditei que quando estudo ou trabalho estou lutando por mim, pelas minhas filhas e por todas as mulheres. Sempre tive uma compreensão macro das minhas ações, sempre pensei que um ofício, por exemplo, é mais que um papel. Representa passos para a concretização de um projeto, de um sonho, de possibilidade de construção de uma educação melhor, de um mundo melhor. Além disso, busco focar na qualidade das minhas relações. Mais que quantidade, foco na qualidade. Converso muito com minhas filhas. Procuro, mais do que vê-las, enxergá-las...

    3. O conto da aia, de Margaret Atwood, é um romance fictício que se passa num futuro muito próximo na república de Gilead (anteriormente era os Estados Unidos da América). Nessa república não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes e as universidades foram extintas. O Estado é teocrático e totalitário e as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes, numa sociedade onde elas perderam todos os seus direitos. Infelizmente, retrocessos como este não estão apenas na ficção. A história das mulheres iranianas é um exemplo disso. A partir da revolução islâmica, em 1979, as suas vestimentas foram questionadas e no início da década de 80 foi imposto um código de vestimentas obrigatório a estas mulheres. Neste contexto, fica claro a fragilidade do direito feminino, descrito pela autora Simone de Beauvoir como uma concessão temporária. Com base no texto acima, escreva sobre a importância dos movimentos feministas na sociedade brasileira.

    Interessante. Acho que respondi a questão na primeira resposta. Acredito que as conquistas são frágeis, pois exigem constantes vigilâncias. O mundo está estruturado na lógica machista e discriminatória, oprimindo a minoria. Cabe a nós lutar para que seja modificado, transformado. Paulo Freire alimenta a nossa esperança: a história é construída por homens e mulheres e, por nós, pode ser transformada. Devemos sempre enxergar além das aparências, pois estão sempre tentando fomentar nas mulheres o espírito competitivo. Exército dividido é exército vencido! Precisamos identificar as amarras da manipulação e ir nos libertando... De novo Paulo Freire: As pessoas se libertam em comunhão. Por isso, precisamos criar em nós um sentimento de pertença. A neutralidade é ilusória e mantém as estruturas hegemônicas.

    4. No seu ponto de vista, qual é o maior legado que as mulheres desta geração podem deixar para as futuras mulheres que habitarão o nosso planeta.

    Acredito que nosso maior desafio e legado seja mesmo lutar por nossas conquistas e ampliá-las. Vejo a democracia cada vez mais frágil e em risco. Precisamos auxiliar as novas gerações a enxergarem a estrutura de poder e a lutarem para transformá-las. Estamos estarrecidas com a violência contra a mulher. Como isso tem se tornando uma epidemia mundial. Precisamos lutar por políticas públicas a favor das mulheres. É preciso acolher, formar, lutar pela dignidade em todas as áreas.

    5. A partir de sua experiência, qual mensagem de motivação, força e empoderamento você poderia dizer para nossas estudantes, servidoras e mulheres da comunidade local?

    Retomo Paulo Freire: cuide de sua esperança, como quem cuida de um planta. Ter esperança não significa estar estática, mas perceber que grandes mudanças são baseadas em ações cotidianas. Entenda que você não está sozinha e que você é muito importante. Compreenda que força não significa violência, mas resistência. Estude muito. Perceba que sua luta não atinge apenas a dimensão pessoal. Muitas se inspiraram em você e poderão acreditar que é possível mudar as relações (intrapessoal e interpessoal). Seja fiel aos seus princípios. Foque no tipo de pessoa que você quer ser. Erros acontecem, faça deles oportunidades de aprendizagem. Olhe com carinho para você e para sua história. Faça sempre o melhor. Acolha outras mulheres. Ocupe o seu lugar na história.

     

     

    Boletim IF em Movimento

  • IF Mulheres (entrevista completa do Boletim IF em Movimento - set/21)

    Criado em 2020, para este Boletim, o IF Mulheres é um espaço destinado a divulgar as ações de mulheres que se vinculam ao IF Goiano. Esta seção, que objetiva combater a institucionalização das violências contra as mulheres, constitui-se como um espaço de referência e sororidade as nossas estudantes, servidoras e mulheres da comunidade local. Em vista das condições históricas, políticas e culturais machistas e patriarcais, ressalta-se a necessidade da construção de espaços como estes, tendo em vista que a naturalização das diferentes violências contra a mulher resulta na marginalização e silenciamento feminino em seus espaços de inserção/atuação. Nesta edição, entrevistamos três mulheres, que atuaram/atuam frente a ações para difusão de pensamentos feministas na nossa sociedade e trabalham com o empoderamento feminino.

    Tema: A importância do feminismo na vida das mulheres.

    A equipe desta ação agradece o espaço permitido pelos nossos gestores. Trabalhamos juntos para o crescimento da nossa instituição.

     

     

    Entrevistada: Ramayane Bonacin Braga

    Descrição profissional: Bacharel em Sistemas de Informação pela Universidade Estadual de Goiás, Campus Goianésia, com Especialização em MBA na área de Governança de TI. Atua na Educação Profissional desde 2009 em diferentes escolas da Rede EPT. Professora efetiva do Campus Ceres desde 2015, ministrando disciplinas na área de Engenharia de Software e Análise de Sistemas. Já coordenou projetos de extensão na área de Lógica de Programação para Criança da Educação Fundamental I. Coordena o Projeto Meninas Digitais no Cerrado desde 2016, junto aos professores Adriano Braga, Natália Louzada e Thalia Santana. O projeto Meninas Digitais no Cerrado faz parte dos projetos parceiros do programa nacional Meninas Digitais da Sociedade Brasileira da Computação (SBC). Faz parte do Comitê Gestor do Programa Meninas Digitais da SBC. Atualmente está cursando o mestrado em Educação Profissional (ProfEPT) do Campus Ceres.

    1. Todes aqueles que realizam uma pesquisa, ainda que superficial, sobre feminismo entenderão que se trata de um movimento de luta de mulheres que buscam a igualdade de gênero, ou seja, uma sociedade em que homens e mulheres tenham acesso aos mesmos direitos. No entanto, muitas vezes o feminismo é visto como o oposto do machismo, ou seja, um sistema de opressão das mulheres contra os homens. Para você, qual a origem dessa incompreensão em relação ao que o feminismo representa e quais são os impactos negativas que esse equívoco pode causar para os movimentos sociais?

    Primeiramente acredito que o movimento contra o Feminismo surge a partir daqueles que querem negar nossos direitos e assim criar uma imagem negativa para que as próprias mulheres não se vejam reconhecidas neste movimento tão importante por uma equidade de gênero. Os impactos negativos contra o feminismo, em 1º lugar, podemos definir como um retrocesso em uma luta que já obteve tantas conquistas importantes. Em segundo lugar poderia dizer que há uma dificuldade de entendimento, pelas mulheres, da importância do movimento e o que ele representa e quais conquistas foram alcançadas. E por último, se o movimento de Feminismo não for reconhecido como algo positivo e importante, teremos dificuldade de ocupar espaços de fala sobre temática em eventos e lugares públicos. Por isso, vejo como de suma importância para combater essa imagem negativa o conhecimento da história das conquistas e das lutas das mulheres que representam essas causas.

    2. Muitas mulheres feministas se encontram em uma posição dicotômica entre a sua atuação na luta feminista e a forma como se comportam em suas relações, visto que por mais que haja um processo de desconstrução em curso, todas e todos somos frutos de uma sociedade patriarcal. Isso significa que crenças machistas ainda podem influenciar o comportamento dessas mulheres em seus diferentes tipos de relacionamento (profissional, amoroso, familiar, etc). A partir dessa reflexão, qual seria a melhor forma de evitar que esse paradoxo (ser feminista e ter pensamentos/comportamentos machistas decorrentes do contexto patriarcal em que as mulheres se inserem) se torne mais uma forma de opressão contra as mulheres?

    Como dito, ser feminista em uma sociedade construída a partir de concepções patriarcais é viver em constantes julgamentos e reflexões por toda a sociedade, inclusive a família. O exercício de luta pela equidade de gênero deve ser diário e praticar a sororidade – na minha opinião, é uma das melhores formas de enfrentar esta cultura patriarcal, ser solidárias umas com as outras faz nos sentirmos apoiadas e mais fortes para entender que a luta é única e deve ser vista por todos e todas de uma forma positiva.

    3. O conto da aia, de Margaret Atwood, é um romance fictício que se passa em um futuro muito próximo, na República de Gilead (que era, anteriormente, os Estados Unidos da América). Nessa república não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes, e as universidades foram extintas. O Estado é teocrático e totalitário e as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes, em uma sociedade em que elas perderam todos os seus direitos. Infelizmente, retrocessos como estes não ocorrem apenas na ficção. A história das mulheres iranianas é um exemplo disto – a partir da revolução islâmica em 1979, as suas vestimentas foram questionadas e, no início da década de 80, foi imposto um código de vestimentas obrigatório a estas mulheres. Nesse contexto, fica claro a fragilidade do direito feminino, descrito pela autora Simone de Beauvoir como uma concessão temporária. Com base no texto acima, escreva sobre a importância dos movimentos feministas para a sociedade brasileira e a manutenção dos direitos das mulheres.

    A missão de defender a equidade de gênero não é só um movimento feminista com brasileiras e mulheres mundialmente conhecidas, mas é uma obrigação muito maior descrita nos objetivos da ONU para 2030 e assinados por países do mundo todo. Portanto defender os direitos das mulheres e empoderá-las é uma missão mundial e de suma importância para que a sociedade possa no futuro ser mais próspera, justa e igualitária.

    4. Segundo Alexandra Gurgel (conhecida pelo perfil @alexandrismos), em matéria para a Revista Trip - Uol, “quando a gente pensa na nossa sociedade, que é patriarcal, percebemos que o machismo é a raiz do problema. Os homens veem a mulher como objeto e como algo a ser possuído. A mulher tem que ser subjugada ao homem e o olhar que importa é aquele do homem sobre ela. Essa pressão existe de qualquer jeito, a pressão para ser perfeita. Há um padrão para ser seguido e quem se aproxima mais dele é mais bonito”. A partir dessa afirmação, nota-se que, de um lado, a mulher feminista luta contra a imposição desses padrões sobre o corpo das mulheres, e, por outro lado, ela mesma sofre essas imposições sobre o seu corpo, recorrendo, muitas vezes, a tratamentos estéticos ou cirurgias plásticas para se aproximar desses padrões. Isto posto, considera-se que, em geral, essas mulheres são julgadas, por diferentes grupos, tanto quando lutam, quanto quando cedem aos padrões de beleza. Como criar uma rede de apoio e acolhimento para que haja maior acolhimento e compreensão entre as mulheres independente de suas escolhas pessoais?

    Toda e qualquer rede de apoio pode e deve ser criada sempre que existir alguém motivada a mudar um cenário que não está satisfatório, assim foi com o Meninas Digitais no Cerrado. Um projeto de empoderamento feminino na computação que nasceu pela motivação de duas professoras e um professor que acreditavam que o projeto poderia ajudar muitas meninas a escolherem os cursos de computação como profissão. Este ano o projeto completa 05 anos e o grupo cresceu bastante, já somos 04 professores que coordenam as atividades juntamente com as bolsistas e colaboradoras do projeto, e sempre com muitas estudantes e servidores apoiando e participando das atividades. Fazemos parte de uma grande rede de apoio que é o Programa Meninas Digitais da Sociedade Brasileira de Computação. Este programa apoia mais de 100 projetos por todo o nosso Brasil com a mesma missão de empoderar meninas na computação. Portanto é de suma importância que procuremos fazer parte de alguma rede de apoio assim teremos ambientes de falas, reflexões e ações para que possamos trabalhar nas futuras mudanças do nosso ambiente de convívio.

    5. A partir de sua experiência, qual mensagem de motivação, força e empoderamento você poderia deixar para nossas estudantes, servidoras e mulheres da comunidade local?

    Minha mensagem de motivação para todas as mulheres que fazem parte da nossa rede acadêmica é que conheçam mais sobre os movimentos feministas, faça parte de algum grupo que defendam nossos direitos. Se onde você trabalha ou estuda não tem nenhum projeto ou grupo que discutam essa temática e você acredita ser importante, comece a se movimentar, crie um projeto ou um evento ou mesmo um grupo de estudos. O importante é aumentar a rede de apoio e ajudar ainda mais mulheres a defenderem seus direitos, assim aos poucos vamos mudando essa sociedade tão desigual.

     

     

    Entrevistada: Thalia Santos de Santana

    Descrição profissional: Professora dos cursos de Informática do Campus Ceres do Instituto Federal Goiano (IF Goiano). Mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciência da Computação (INF/UFG). Bacharela em Sistemas de Informação também pelo IF Goiano - Campus Ceres (2019). É uma das coordenadoras do projeto Meninas Digitais no Cerrado, e colaboradora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Tecnologia da Informação (NEPeTI).


    1. Todes aqueles que realizam uma pesquisa, ainda que superficial, sobre feminismo entenderão que se trata de um movimento de luta de mulheres que buscam a igualdade de gênero, ou seja, uma sociedade em que homens e mulheres tenham acesso aos mesmos direitos. No entanto, muitas vezes o feminismo é visto como o oposto do machismo, ou seja, um sistema de opressão das mulheres contra os homens. Para você, qual a origem dessa incompreensão em relação ao que o feminismo representa e quais são os impactos negativos que esse equívoco pode causar para os movimentos sociais?

    A mulher sempre foi vista como impura, pecadora, bruxa. Mesmo nas sociedades mais antigas, a exemplo da Grécia Antiga, as mulheres já eram tidas unicamente como propriedade, seja de seus pais ou maridos. A partir do momento em que as mulheres passaram a repensar ou questionar os motivos do domínio dos homens, que sempre condenavam suas condutas, e reivindicar direitos de fato, começam a surgir pessoas para ir contra e privar mais uma vez as mulheres. Falar de direitos frequentemente negados e buscar por eles sempre enfrentou resistência na sociedade, e assim foi estabelecido um estigma no intuito de desqualificar este tipo de luta, que corrobora para criar uma ideia errada sobre o movimento feminista. Até porque o contrário de machismo não é feminismo, mas sim “femismo”. Como impacto, é muito mais fácil acreditar na primeira forma em que o feminismo lhe é dito e apresentado, consequência de anos e anos de opressão, do que simplesmente averiguar e compreender a causa, o que demonstra que o desconhecimento também oprime.

    2. Muitas mulheres feministas se encontram em uma posição dicotômica entre a sua atuação na luta feminista e a forma como se comportam em suas relações, visto que por mais que haja um processo de desconstrução em curso, todas e todos somos frutos de uma sociedade patriarcal. Isso significa que crenças machistas ainda podem influenciar o comportamento dessas mulheres em seus diferentes tipos de relacionamento (profissional, amoroso, familiar, etc). A partir dessa reflexão, qual seria a melhor forma de evitar que esse paradoxo (ser feminista e ter pensamentos/comportamentos machistas decorrentes do contexto patriarcal em que as mulheres se inserem) se torne mais uma forma de opressão contra as mulheres?

    Que levante a mão que mulher não passou por essa dicotomia! Quando começamos por este processo de questionamento e reflexão de direitos, de entender de fato o que é o feminismo, ainda somos fruto de vários anos de uma sociedade patriarcal. E por ora, as pessoas com quem mais convivemos, como a família, em todo instante imprimem comportamentos machistas (até mesmo inconscientemente) do que “devemos” ou “não devemos” ser para viver em sociedade: “Menina, não senta assim!”, “Não fale dessa forma, nunca vai achar um marido”, e assim sucessivamente. Para que possamos reverter esta situação, uma das formas seria o acesso à educação e ao conhecimento, ler, pesquisar, informar-se, conversar com outras mulheres... E foi assim que aconteceu comigo, propiciado pelo Campus Ceres e pelas pessoas que o constituem, como um espaço aberto para discussões. Assim, podemos entender melhor essa realidade que nos permeia, as relações sociais de gênero, e daí perceber o que de fato está errado para que possamos corrigir, evitando expressões machistas em nossas atitudes pessoais, para impactar futuramente no todo.

    3. O conto da aia, de Margaret Atwood, é um romance fictício que se passa em um futuro muito próximo, na República de Gilead (que era, anteriormente, os Estados Unidos da América). Nessa república não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes, e as universidades foram extintas. O Estado é teocrático e totalitário e as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes, em uma sociedade em que elas perderam todos os seus direitos. Infelizmente, retrocessos como estes não ocorrem apenas na ficção. A história das mulheres iranianas é um exemplo disto – a partir da revolução islâmica em 1979, as suas vestimentas foram questionadas e, no início da década de 80, foi imposto um código de vestimentas obrigatório a estas mulheres. Nesse contexto, fica claro a fragilidade do direito feminino, descrito pela autora Simone de Beauvoir como uma concessão temporária. Com base no texto acima, escreva sobre a importância dos movimentos feministas para a sociedade brasileira e a manutenção dos direitos das mulheres.

    A primeira graduação de uma mulher no Brasil só ocorreu em 1887. As mulheres só adquiram direito ao voto feminino no país em 1932. Dados como esses relembram que embora hoje pareça trivial que uma mulher possa votar, trabalhar ou ter direito à bens em seu nome, a maior parte destes direitos possuem menos de 100 anos que foram conquistados. Ao mesmo tempo, todas essas conquistas são reflexo direto dos movimentos feministas, que se iniciaram em outros países e influenciaram a busca constante por igualdade de gênero, além de aproximação de demais pautas sociais de grande relevância. Nesta discussão de concessão temporária, apenas na Constituição de 1988 que juridicamente homens e mulheres foram considerados iguais. Não obstante, somente em 2006 é que a Lei Maria da Penha foi sancionada criminalizando a violência contra a mulher. É por esses e outros motivos que o poder de fala e a maior representatividade de mulheres, a exemplo dos espaços de poder, é de suma importância para mantenimento de nossos direitos, em que em condições de injustiça, ser mulher acaba sendo também um ato político.

    4. Segundo Alexandra Gurgel (conhecida pelo perfil @alexandrismos), em matéria para a Revista Trip - Uol, “quando a gente pensa na nossa sociedade, que é patriarcal, percebemos que o machismo é a raiz do problema. Os homens veem a mulher como objeto e como algo a ser possuído. A mulher tem que ser subjugada ao homem e o olhar que importa é aquele do homem sobre ela. Essa pressão existe de qualquer jeito, a pressão para ser perfeita. Há um padrão para ser seguido e quem se aproxima mais dele é mais bonito”. A partir dessa afirmação, nota-se que, de um lado, a mulher feminista luta contra a imposição desses padrões sobre o corpo das mulheres, e, por outro lado, ela mesma sofre essas imposições sobre o seu corpo, recorrendo, muitas vezes, a tratamentos estéticos ou cirurgias plásticas para se aproximar desses padrões. Isto posto, considera-se que, em geral, essas mulheres são julgadas, por diferentes grupos, tanto quando lutam, quanto quando cedem aos padrões de beleza. Como criar uma rede de apoio e acolhimento para que haja maior acolhimento e compreensão entre as mulheres independente de suas escolhas pessoais?

    Devemos começar pelas mulheres que estão a nossa volta, e como dito anteriormente, repensar nossas atitudes pessoais. Acolher o que é diferente (mas o que é diferente é de fato diferente? qual a referência adotada?) e ver a real “beleza”, que vai além de padrões estéticos – padrões esses que são socialmente construídos, em relação a corpos magros, corpos gordos, etc. Mesmo aquelas que se agarram às construções sociais do que é “definido pela sociedade” como ser mulher não conseguem atender a todos os padrões impostos pela sociedade – é necessária uma nova visão do belo. Mesmo entre nós mulheres ligadas à luta feminista é importante evitar julgar a escolha de outra mulher em relação à adesão a um padrão, mas sim estar ao lado dela para que se possa propiciar reflexão se aquilo é de fato uma escolha pessoal dela, ou, de forma inconsciente, o resultado de imposições de padrões sociais. Para mim, minha rede de apoio é e foi o projeto Meninas Digitais no Cerrado, capaz de me tornar uma pessoa melhor, mais empática e que pratica sororidade entre outras mulheres. Saber que você pode contar com outras mulheres neste processo é essencial.

    5. A partir de sua experiência, qual mensagem de motivação, força e empoderamento você poderia deixar para nossas estudantes, servidoras e mulheres da comunidade local?

    Sejam corajosas, acreditem em si mesmas e sigam sua intuição. A luta das mulheres é constante, mas resistamos e sigamos em nosso ato revolucionário: ser mulher!

     

     

    Entrevistada: Ianka Talita Bastos de Assis

    Descrição profissional: Web Design/UI Design na empresa Traço Design de Negócios

    1. Todes aqueles que realizam uma pesquisa, ainda que superficial, sobre feminismo entenderão que se trata de um movimento de luta de mulheres que buscam a igualdade de gênero, ou seja, uma sociedade em que homens e mulheres tenham acesso aos mesmos direitos. No entanto, muitas vezes o feminismo é visto como o oposto do machismo, ou seja, um sistema de opressão das mulheres contra os homens. Para você, qual a origem dessa incompreensão em relação ao que o feminismo representa e quais são os impactos negativos que esse equívoco pode causar para os movimentos sociais?

    Ao longo dos anos diversas mulheres lutam arduamente para que o movimento feminista seja respeitado, entretanto nem sempre a mensagem que queremos passar é replicada com exatidão. Em muitos casos a mídia torna-se sensacionalista distorcendo os fatos para que consigam vender mais, então o que dá lucro é dizer que: “Mulheres histéricas e seminuas estão circulando pelas ruas exigindo que os homens sejam exterminados do planeta”. Infelizmente essas ações midiáticas acarretam repulsa e aversão da sociedade para com o movimento feminista, o que gera fake news e descaso da população em permitir-se conhecer mais sobre a filosofia e ações que são verdadeiramente em prol da equidade de gênero.

    2. Muitas mulheres feministas se encontram em uma posição dicotômica entre a sua atuação na luta feminista e a forma como se comportam em suas relações, visto que por mais que haja um processo de desconstrução em curso, todas e todos somos frutos de uma sociedade patriarcal. Isso significa que crenças machistas ainda podem influenciar o comportamento dessas mulheres em seus diferentes tipos de relacionamento (profissional, amoroso, familiar, etc). A partir dessa reflexão, qual seria a melhor forma de evitar que esse paradoxo (ser feminista e ter pensamentos/comportamentos machistas decorrentes do contexto patriarcal em que as mulheres se inserem) se torne mais uma forma de opressão contra as mulheres?

    A desconstrução de estereótipos, padrões e ações é um processo lento. Trabalhamos com incertezas e por mais desconstruída, livre de pensamentos tradicionais que uma pessoa possa vir a ser, sempre teremos pensamentos machistas vez ou outra inconscientemente, isso se dá pelo simples fato de que fomos criadas em uma sociedade patriarcal que tolera as mulheres e as vê como reprodutoras e submissas. Entretanto, devemos nos policiar a tais pensamentos. Cada um, independente de gênero, raça ou classe merece respeito, empatia e amor. Entenda seu lugar no mundo, o seu lugar de fala, olhe a história e aprenda com a luta de nossas antepassadas; as lutas não foram em vão. Para que possamos evitar o paradoxo de sermos influenciáveis, devemos consumir o máximo de informação possível, avaliar se são verídicas e formar nosso próprio caráter sem tapar os olhos para as atrocidades do passado.

    3. O conto da aia, de Margaret Atwood, é um romance fictício que se passa em um futuro muito próximo, na República de Gilead (que era, anteriormente, os Estados Unidos da América). Nessa república não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes, e as universidades foram extintas. O Estado é teocrático e totalitário e as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes, em uma sociedade em que elas perderam todos os seus direitos. Infelizmente, retrocessos como estes não ocorrem apenas na ficção. A história das mulheres iranianas é um exemplo disto – a partir da revolução islâmica em 1979, as suas vestimentas foram questionadas e, no início da década de 80, foi imposto um código de vestimentas obrigatório a estas mulheres. Nesse contexto, fica claro a fragilidade do direito feminino, descrito pela autora Simone de Beauvoir como uma concessão temporária. Com base no texto acima, escreva sobre a importância dos movimentos feministas para a sociedade brasileira e a manutenção dos direitos das mulheres.

    Apesar das inúmeras lutas e conquistas das mulheres nos últimos tempos, é alarmante a situação em que o Brasil se encontra em relação a violência, objetificação, feminicídio e inferiorização da mulher. Infelizmente ainda vivemos em um país patriarcal e extremamente machista, onde os direitos das mulheres são desprezados e mortes e mais mortes são arquivadas e esquecidas. A luta pela equidade de gênero é um marco histórico em todo mundo, entretanto, motivo para chacota pela sociedade. Os movimentos feministas enfatizam o direito ao mínimo em que uma mulher deveria receber: saúde, apoio, respeito, salários compatíveis com suas funções e não com o seu gênero. Mesmo que ainda hoje tenham projetos de leis esdrúxulas como o Projeto de Lei nº 5096/2013 de autoria de Eduardo Cunha, que visa dificultar mais ainda o acesso ao aborto seguro em casos de estupro, há também conquistas memoráveis. Entretanto, sem o movimento feminista e a luta de todas as mulheres, nada que conquistamos até hoje seria possível. Por mais que tenhamos conquistado ⅓ dos nossos direitos, muitas ações, projetos políticos, movimentos sociais ainda precisam ser reajustados para que o respeito e a equidade paire entre a sociedade e que todos tenham os mesmo direitos e reconhecimento.

    4. Segundo Alexandra Gurgel (conhecida pelo perfil @alexandrismos), em matéria para a Revista Trip - Uol, “quando a gente pensa na nossa sociedade, que é patriarcal, percebemos que o machismo é a raiz do problema. Os homens veem a mulher como objeto e como algo a ser possuído. A mulher tem que ser subjugada ao homem e o olhar que importa é aquele do homem sobre ela. Essa pressão existe de qualquer jeito, a pressão para ser perfeita. Há um padrão para ser seguido e quem se aproxima mais dele é mais bonito”. A partir dessa afirmação, nota-se que, de um lado, a mulher feminista luta contra a imposição desses padrões sobre o corpo das mulheres, e, por outro lado, ela mesma sofre essas imposições sobre o seu corpo, recorrendo, muitas vezes, a tratamentos estéticos ou cirurgias plásticas para se aproximar desses padrões. Isto posto, considera-se que, em geral, essas mulheres são julgadas, por diferentes grupos, tanto quando lutam, quanto quando cedem aos padrões de beleza. Como criar uma rede de apoio e acolhimento para que haja maior acolhimento e compreensão entre as mulheres independente de suas escolhas pessoais?

    A corrida pela padronização da beleza é algo doloroso, não somente físico, mas também psicológico. A busca incessante pela perfeição, pelo corpo perfeito, pelos padrões estéticos desejados, varia de geração para geração. Contudo, em pelo século XXI o que mais se vê são mulheres lindas atordoadas com pequenas imperfeições em seus corpos. As redes sociais, por mais benéficas que sejam em sua maioria, muitas vezes são um ambiente tóxico e deprimente. Com a pandemia pôde-se acompanhar nos jornais a alta procura por procedimentos estéticos devido à utilização exagerada de filtros em apps como Instagram, Snapchat, TikTok, entre outros. Com isso, presencia-se também movimentos feministas virtuais que cresceram descomunalmente como a hastag body positive sendo enfatizada pela brilhante Alexandra Gurgel. Uma das redes de apoio criada pela influencer é o perfil @movimentocorpolivre, no Instagram, que atualmente conta com mais de 400 mil pessoas. Não é necessário muito para criar uma rede de apoio, tudo que precisamos é de respeito, compreensão, entender seu lugar de fala, apoiar, incentivar e motivar pessoas.

    5. A partir de sua experiência, qual mensagem de motivação, força e empoderamento você poderia deixar para nossas estudantes, servidoras e mulheres da comunidade local?

    Entendo sua dor, entendo as dificuldades em que muitas mulheres vivem todos os dias e o que passamos em nossos lares, ambientes de trabalho, relacionamentos, ao andar na rua, ao respirar, ao existir. Entendo que exista dentro de si uma vontade enorme de desistir, até porque seria mais fácil, não teríamos que nos preocupar com o amanhã. Mas sabemos também a força que temos dentro de nossos corações. Então, antes de pensar em jogar tudo para o ar, levante-se, pegue um copo d’água, respire fundo e erga a cabeça, pois mesmo achando que não, sempre vai existir uma pessoa que se inspira em você todos os dias. Você não está só, entenda isto! Existe a sua volta uma rede de mulheres fantásticas com caminhões repletos de amor e compreensão para lhe abraçar, apoiar e incentivar sempre que possível. Caso você não tenha esse amparo, existem hoje projetos fabulosos onde você pode trilhar o seu caminho e encontrar uma rede de apoio incrível – foi o que eu fiz. Participo do projeto Meninas Digitais no Cerrado e fico imensamente feliz em poder contribuir para o acolhimento e ensino de outras mulheres que, assim como eu, visam um mundo melhor, com mais respeito, oportunidades e empatia.

     

     

    Equipe do Boletim IF em Movimento

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